Mostra Passageiros


MOSTRA PASSAGEIROS

Curadoria Débora Aita Gasparetto (Doutoranda em Artes Visuais PPGAV/UFRGS – Bolsista CAPES)

Artistas: Anelise Witt, Angelo Bissacotti Brum, Cristiano Lenhardt, Eduardo Montelli, Fábio Purper Machado, Mirieli Costa, Paula Witeck e Rafael Berlezi

Local: Espaço do MASM - Museu de Arte de Santa Maria – Av. Presidente Vargas, 1400

O CONCEITO:
A mostra Passageiros propõe levar a videoarte para dentro do museu, criando um clima de cinema de exposição, em parceria com a Galeria Mamute, o Labart /UFSM e o PPGAV/UFRGS. Esta é a primeira, de uma série de mostras de Videoarte, que acontecerão no Rio Grande do Sul, a partir de um projeto colaborativo proposto pela Galeria Mamute, ativando espaços culturais, artistas e curadores. Para esta exposição, a proposta é construir uma narrativa pautada nas questões críticas que permeiam o trabalho dos artistas selecionados, todos jovens artistas gaúchos.
A geração que nasceu ou cresceu em meio aos anos 1980, sempre esteve mediada pelos meios de comunicação, desenvolveram-se em frente à TV, ampliaram suas habilidades com os jogos e videogames, acompanharam a emergência da internet e a constante inserção e reposição das novas mídias na sociedade. Esta geração, que nasceu influenciada pelo espírito do Filme Curtindo a Vida Adoidado, 1986, dirigido por John Hughes, tem valorizado o instante. Passado ou futuro já não estão mais na preocupação imediata destes indivíduos. Há pouco tempo estes jovens eram acusados de “interpassivos” ou “manifestantes de sofá”, no entanto eles têm saído às ruas defendendo seus direitos. Entre outros interesses, a defesa também é pelo direito de consumo. Mas quais são as verdadeiras manifestações de hoje? Por que(m) vale à pena lutar?
O pensamento do filósofo esloveno Slavoj Zizek (2011) tem nos interessado e foi um dos pontos de partida para pensarmos esta mostra. Se um desastre é inevitável em termos de catástrofes ecológicas, de evoluções tecnocientíficas e até mesmo em relação ao indivíduo e ao que é comum, em novas formas de apartheid, podemos ativar algumas percepções para realizar pequenas, mas significativas mudanças. Para Zizek três pontos são fundamentais para promover uma verdadeira transformação: a cultura, a natureza externa e a natureza interna.
Os artistas que trazemos para esta mostra não acordaram apenas em junho de 2013 e também não se acomodaram em frente à TV, pelo contrário, responderam criticamente aos seus estímulos. Eles não propõem “mudar o mundo”, mas reconhecer e explorar alguns pontos críticos. Estes artistas descobrem o potencial estético do vídeo trazendo à tona algumas reflexões sobre “incômodos” contemporâneos.
Alguns estão interessados nas relações de lugar, seja ele o ambiente no qual habitamos, ou no próprio espaço expositivo da arte, ou ainda nos lugares que impregnaram a memória e o imaginário. Outros propõem uma reflexão sobre a vida, a natureza, o ser humano, o tempo, a duração da beleza, os métodos e o desgaste entre as relações.
Em Vão (2012), Paula Witeck expõe o modo como a humanidade entrou em colapso, por meio de guerras, destruições e caos. E quando a imagem frágil da morte parece romper com o que nos cerca, somos levados a repensar a perenidade. A artista tem trabalhado as Vanitas contemporâneas, a morte e a passagem do tempo.
E quanto tempo dura a luz de uma estrela? A beleza também é vã. Sutis corpos celestes em movimentos manipuláveis, estrelas do efêmero, compõe a obra Constelação (2011), de Cristiano Lenhardt. Imagens que nos reportam de modo nostálgico ao apagar e ascender das estrelas e ao modo como rapidamente se transformam em cor, luz, reflexos, formas e sombras.
Também é sobre a impermanência que nos fala a obra de Angelo Bissacotti Brum, Fugaz (2012). Entre muitos planos parados, percebemos que a vida segue em movimento e quando a câmera acelera reconhecemos a estagnação e o vazio dos lugares. Da introspecção, do "Eu", à sua experiência solitária pela circulação constante das grandes cidades. Angelo trata do tempo, das sensações e percepções.
As relações, o desgaste ocasionado pelo tempo, e as perdas são abordadas por Mirieli Costa na série "Projeto Desgaste". O vídeo que selecionamos desta série, Desgaste: 6º apontamento (2010 – 2011), constrói relações fictícias entre o espaço do lar e alguns animais de brinquedo. Enquanto a campainha toca e a luz apaga e acende, percebemos a fragilidade das relações que construímos, quando um simples toque as descarta.
Eduardo Montelli também se interessa pela construção de narrativas e formação de identidades em espaços de vivência. Em Diegese (2012), o artista trabalha com a poesia das palavras e imagens, apresentando um lugar aparentemente pacato no qual o som da chuva, carregado de mistério, cai na piscina coberta por insetos agonizantes. Em um pátio vazio, folhas brancas são sutilmente levadas pelo vento, parecendo transportar também a nossa história, mas em tons de mudança.
Anelise Witt também trabalha com o que, muitas vezes, está obscuro em nossas vivências cotidianas. Os cenários delicados e inquietantes construídos de massinha de modelar pela artista, em La Cucaracha Samsa (2009), trazem densas problemáticas, afinal será que nos tornamos aquilo que vemos? Anelise parte de Kafka em A Metamorfose para pensar sobre os meios de comunicação de “massa”, a maneira como nos transformam e o quanto eles assumem a nossa vida.
Fábio Purper Machado, com as Narrativas do Grotesco Cotidiano (2012), também se interessa pelos meios de comunicação e pelas sociedades de controle. O artista, que tem um sólido trabalho em narrativas com fotografias de esculturas, as chamadas HQ-Escultura, nesta oportunidade transporta para o vídeo suas críticas. Primeiramente, ele baseia-se em Deleuze para demonstrar que as prisões estão para além das celas, invadindo o cotidiano, e na sequência, em “Claustros”, temos a imposição de outra
temporalidade, aquela ditada pelo artista, ao ritmo das “cavernas” contemporâneas de controle e dos sujeitos, cada vez mais, “aparelhados” que tentam “transpor seus limites”.
Mas até que ponto o sujeito pode transpor os seus limites? A pergunta é válida tanto em relação às “cavernas” quanto ao próprio sujeito. E quanto vale o progresso? Os Ratos (2008), de Rafael Berlezi, nos conduz à reflexão sobre os métodos, muitas vezes cruéis, com os quais a humanidade executa seus grandes feitos. A obra versa sobre a crueldade com os ratos em testes de laboratório, denotando o desgaste que impregnou as relações entre o homem e a natureza, em pretensões de afirmar a superioridade dos humanos em relação às outras espécies. Resquícios de um modelo humanista, crente na máxima de Alberti de que “se quiser o homem pode tudo”. Neste ponto, reiteramos o pensamento de Kenneth Clark: "Como soa ingênua a frase de Alberti ao se pensar na carga de terror e lembranças que cada indivíduo leva dentro de si! Sem falar nas forças exteriores cujo controle está totalmente fora do seu alcance" (CLARK, 1995, p. 135)
Enfim, construímos esta narrativa curatorial buscando questionar alguns “pequenos distúrbios” da vida contemporânea e, de modo algum, queremos fechar as respostas, pelo contrário, sugerimos novos olhares e a composição de percepções variadas.
REFERÊNCIAS:
CLARK, Kenneth. Civilização: uma visão pessoal. Trad. Madalena Nicol. São
Paulo: Martins Fontes, 1995.
ZIZEK, Slavoj. Primeiro como tragédia, depois como farsa. São Paulo: Boitempo Editorial, 2011.

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