No Tempo - Iberê Camargo




Exposição No Tempo traz 49 obras de Iberê Camargo a Santa Maria
De 26 de outubro a 23 de novembro, o Museu de Arte de Santa Maria vai apresentar uma importante mostra de gravuras e desenhos de diferentes fases do artista, desde o início de sua carreira até os registros mais recentes. Coquetel de abertura acontece no dia 25 de outubro, 19h30.
A mostra No Tempo, de Iberê Camargo (1914-1994), um dos mais importantes artistas brasileiros, nascido em Restinga Seca,  e referência fundamental na arte moderna, vai trazer 49 obras a Santa Maria no projeto Itinerâncias,  assinado pela Fundação Iberê Camargo e Sistema Fecomércio-RS/ Sesc, em parceria com o Museu de Arte de Santa Maria (MASM), a Prefeitura Municipal de Santa Maria e a Secretária Municipal da Cultura. A abertura será dia 25 de outubro, às 19h30, e a visitação acontece de 26 de outubro a 23 de novembro, no MASM (Avenida Presidente Vargas, 1.400). Nessa edição do projeto, Iberê será visto através de uma inversão de suas obras na linha do tempo.
O responsável pelo acervo da Fundação Iberê Camargo e coordenador do Programa Ateliê de Gravura, Eduardo Haesbaert, que também organizou a seleção de obras da mostra, conta que o catálogo elenca obras de diversas fases do artista começando pelas últimas, como a gravura em água-forte Modelos de 1994, terminando pelas primeiras, entre elas uma gravura em ponta-seca com o título de Autorretrato de 1943, feita no Rio de Janeiro. O catálogo traz ainda um texto autobiográfico de Iberê, que consta na primeira edição do livro No Andar do Tempo (1988 – Editora L&PM), e também em Gaveta dos Guardados (2010 – Editora Cosac Naify), onde relata: “Na paisagem, nessa época, procurava fixar o instante fugidio. Queria aferrar, captar o mistério que vejo envolver o real. Minha visão era fenomenológica. Trabalhava com paixão, com ímpeto, com emoção incontida, às pressas; terminado o quadro, não o retocava, mesmo que nele descobrisse dissonâncias. Considerava o instante de criação irretocável, sagrado”. 
A transformação na trajetória artística de Iberê, tanto da figura humana como dos objetos figurativos que ele retrata, a exemplo dos carretéis, mostrada de trás para frente, revela um pouco do que viu na juventude, no interior de Restinga Seca, sua terra natal, e da malha ferroviária de Santa Maria, onde seu pai trabalhou e onde ele mesmo aspirava um trabalho, meta da maioria dos filhos dos ferroviários na época. A exposição traz quatro desenhos usando como inspiração a atmosfera do cotidiano na estação de trem, e outros que remetem ao período de infância do artista, como em Cozinha da Vó Chiquinha (1941), onde os traços imprimem os tarros de leite da avó, lembrando muito Fiada de carretéis 2 (1961), o que segundo Haesbaert, representa a coerência de Iberê com o passar do tempo. “É interessante ver que as obras do início da carreira dele, com toda esta temática que mostra a vida no interior, é tão forte quanto as últimas”, diz.


SERVIÇO
O QUE: Exposição:  No Tempo - Iberê Camargo.
CURADORIA:  Fundação Iberê Camargo
VISITAÇÃO:  26 de outubro a 23 de novembro, de segunda a sexta-feira, das 8h às 16h.
ONDE:  Museu de Arte de Santa Maria – MASM (Avenida Presidente Vargas, 1.400 – CEP 97015-030– Santa Maria/RS)
REALIZAÇÃO: Fundação Iberê Camargo e Sistema Fecomércio-RS/SESC
PARCERIA:  Museu de Arte de Santa Maria (MASM), Prefeitura Municipal de Santa Maria e Secretaria Municipal da Cultura
PATROCÍNIO: Gerdau e Vonpar






O ARTISTA E O FRASISTA

“Tenho sempre presente que a renovação é uma condição de vida. Nunca me satisfaz o que faço. Ainda sou um homem a caminho.”

De excepcional habilidade com o pincel e extraordinária intimidade com as palavras, Iberê Camargo construiu uma trajetória em que pintura e literatura quase se confundem. Os quadros que pintou e as frases que cunhou têm a mesma marca: o abandono, a dor, o desespero. Não faz muito, o crítico Augusto Massi afirmou que Iberê é um caso raro de um grande pintor que é também um notável escritor. No livro de contos A Gaveta dos Guardados, escrito entre 1993 e 1994, Iberê evidencia que conhecia tão bem o colorido dramático das palavras, quanto o movimento do pincel.
“O drama, trago-o na alma. A minha pintura, sombria, dramática, suja, corresponde à verdade mais profunda que habita no íntimo de uma burguesia que cobre a miséria do dia-a-dia com o colorido das orgias e da alienação do povo. Não faço mortalha colorida.”

Filho de ferroviários, praticamente cresceu desenhando. Nascido aos 18 de novembro de 1914, e aos quatro anos já produzia os primeiros rabiscos. Sua trajetória enigmática encerrou-se aos 79 anos, quando, no limite da enfermidade, pintou “Solidão” seu último quadro. Morreu no dia 8 de agosto de 1994, vítima de câncer em Porto Alegre.

“Arte, para mim, foi sempre uma obsessão. Nunca toquei a vida com a ponta dos dedos. Tudo o que fiz, fiz sempre com paixão. No fundo, um quadro para mim é um gesto, um último gesto.”

As sucessivas transferências do pai Adelino fizeram-no peregrinar na juventude entre Restinga Seca, Jaguari, Canela e Santa Maria, onde, aos 13 anos, então morando com a avó, começou seu aprendizado de pintura, na Escola de Artes e Ofícios. Sua iniciação com a arte pedagógica, no entanto, foi interrompida abruptamente. Um desentendimento com um professor marista que ensinava Letras abreviou seu estágio na primeira escola de artes que freqüentou.

“As figuras que povoam minhas telas envolvem-se na tristeza dos crepúsculos dos dias de minha infância. Nascem da minha saga, da vida que dói. Sou impiedoso e crítico com minha obra. Não há espaço para alegria. Toda a grande obra tem raízes no sofrimento. A minha nasce da dor.”
Iberê viria repetir a rebeldia contra os mestres anos depois no Rio de Janeiro. Aconselhado por Portinari, cuja obra não admirava, ingressou na Escola de Belas Artes, mas, inconformado com os padrões rígidos da academia, ficou pouco a vontade para prosseguir, encerrando rapidamente sua carreira universitária que apenas começava. Depois da breve experiência na Escola de Belas Artes, tornou-se aluno de Guignard, um dos mestres que influenciou sua pintura.
“No modernismo, ou você se parecia com Segall ou com Portinari. Eram dois pólos e você tinha que estar entre um ou outro.”
Antes de se transferir para o Rio, conheceu Maria, em Porto Alegre, com quem casou em 1939. Maria Coussirat, estudante de pintura graduada do Instituto de Belas Artes e professora de desenho da escola primária, foi sua companheira por toda a vida. Sua paixão pela pintura foi crescendo. Em companhia de Vasco Prado, desenhava tipos de rua, sem jamais abandonar sua origem interiorana.
“A memória é a gaveta dos guardados, repito para sublinhar. O clima de meus quadros vem da solidão da campanha, do campo, onde fui guri e adolescente. Na velhice perde-se a nitidez da visão e se aguça a do espírito.”
Em 1947, já no Rio de Janeiro, a chance de conhecer o Velho Continente veio com o disputadíssimo Prêmio de Viagem à Europa, com o óleo “Lapa”, destaque no Salão de Arte Moderna, atualmente no Museu Nacional de Belas Artes. Na Europa viu de uma só vez o que conhecia apenas através de escassas informações. Tornou-se aluno de De Chirico em Roma e Lhote em Paris. Viajou por vários países da Europa para ver arte. Regressando ao Brasil, nos fins de novembro de 1950, recomeçou a pintar, ainda atordoado pelo que tinha visto e ouvido.
“Continuo no mesmo rumo, pintando as minhas ladeiras, essas mesmas ladeiras que subo com tanta fadiga. E naturalmente continuo fiel ao meu estilo de arte, construindo o quadro sem recorrer a elementos formais, transformando a natureza em ritmos e sensações coloridas.”
Mestre da pintura moderna no Brasil, Iberê recolheu recortes da infância para retratar sua obra. Em 1958, uma hérnia de disco, provocada pela suspensão de um quadro no cavalete, obrigou-o a trabalhar quase que exclusivamente no ateliê. Seja por essa razão ou por motivos inconscientes, seus quadros começaram pouco a pouco a mergulhar na sombra. O céu das paisagens tornou-se azul-escuro, negro, dando a sua obra um conteúdo de drama. Surge então a produção em que Iberê retrata carretéis sobre a mesa e no espaço.
“Os carretéis são reminiscências da infância. São combates dos pica-paus e dos maragatos que primo Nande e eu travávamos no pátio. Eles estão impregnados de lembranças. Pelas estruturas de carretéis cheguei ao que se chama, no dicionário da pintura, arte abstrata.”
Depois de participar de exposições internacionais em Nova York e Tóquio e de ganhar o prêmio de gravura na Bienal do México e de melhor pintor nacional na VI Bienal de São Paulo, Iberê integra várias exposições coletivas e individuais no Brasil e exterior. Em 1982, Iberê e Maria voltam a residir em Porto Alegre, mas mantêm o ateliê do Rio de Janeiro, dividindo seu tempo entre as duas cidades. Os ciclistas dos anos 80 são personagens incorporados à obra iberiana, quando o artista retorna ao Rio Grande do Sul.

"Voltei para o Sul porque a saudade estava grande demais. À medida que envelhecemos, parece que a infância fica mais perto. Sentimos vontade de reencontrar os primeiros amigos e tudo que foi nosso."


Mudando-se para o bairro Cidade Baixa, próximo ao Parque da Redenção, Iberê iniciou um íntimo convívio com o parque e com seus freqüentadores, sobretudo com os ciclistas. Velozes e muitas vezes sem metas, a não ser pedalar, personificavam um pouco do sentimento do próprio artista. Os ciclistas de Iberê Camargo refletem muito do próprio pintor: um ser em busca de suas verdades e raízes. Marcam os personagens mórbidos que povoam o imaginário do artista no final de sua vida.

“Sou um andante. Carrego comigo o fardo do meu passado. Minha bagagem são os meus sonhos. Como meus ciclistas, cruzo desertos e busco horizontes que recuam e se apagam nas brumas da incerteza.”
A morte de Iberê não encerrou um ciclo; deu início a outro: o do culto à obra e à memória de um dos artistas mais brilhantes e instigantes no Brasil. Através dos anos, críticos e artistas de todas as escolas tentam desvendar os mistérios e a profundidade de sua criação.

“Ainda sou um homem a caminho.”




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